13.1.18

Nem o poste dança: música ruim nos clubs, saudosismos e afins


Sou do tempo que a gente saía de casa pra ver Laurent Garnier , Tood Terry e o David Morales discotecar. E quando digo pra ver, digo ver ao vivo mesmo! Ok, estou velho (42 bem vividos), mas agradeço imensamente a oportunidade de ter acompanhado o surgimento da cena eletrônica no país, de ter feito parte da história de toda uma era clubber, do pajubá todo e ter usado t-shirt fluo. 

Em uma década nem lá tão longínqua, nosso tipo de diversão era muito interessante: nos 90, tudo era novo ("moderno"), mais ou menos estruturado - quando não, bem tosco. A gente nunca sabia onde era o endereço certo da balada, ainda mais quando era open air. A famigerada rave. Como é que vivíamos sem GPS naquela época, realmente não dá pra explicar, mas nos virávamos muito bem com mapinhas feitos à mão. Não tinha palavra que descrevesse a alegria de chegar no ponto desejado, ainda que tivesse que andar mais uns 40 minutos a pé...Uma época que todo final de semana era uma festa que não tinha fim... 

Um burburinho infinito de abrir uma boate aqui e uma boate acolá, de atravessar rodovias e fronteiras. De ficar atolado na lama e nem ligar pra isso. De tomar bebida adulterada e acordar lindamente no dia seguinte. Do Êxtase não bater porque era puro placedo vendido a preço de ouro - e a gente jurando que estava derretendo. Do look realmente derreter porque apostou no DIY de uma saia de papel celofane. De dançar de braços erguidos e saldar o sol quando nascia. De sentir a brisa no rosto e saber, meio que inconsciente, de que estava fazendo parte de algo muito maior...E assim foi a cena dos anos 90 e início dos 2000, pautada ainda por muita, mas muita boa música...Mesmo. 

O DJ era literalmente o rei da festa. Sabia disso? Sim, mandava em toda a bagaça e realmente tudo girava em torno dele. Ele quem pontuava o que o público ia sentir e como passaria a noite. Fazia da gente verdadeiros bonecos experimentais. E isso era muito bom. O arrepio de ouvir The Chemical Brothers pela primeira vez, por exemplo, um The Prodigy que seja. É indescritível. 

Da caixa de fósforos ao superclubs, o DJ estava sempre presente e com um feeling todo especial para o seu set, assim como para o público. A gente já sabia, por exemplo, que o Luiz Pareto ia trocar de peruca, mas além de divertido, era sempre uma novidade vê-lo tocar. A gente sabia que o DJ Marky ia pegar pesado. Ainda assim, era sempre uma experiência de sair fora do corpo. Mas também, todo mundo sabia que em algum momento algo de novo ia despertar a atenção e por alguns minutos deixar a gente ali, parado no meio da pista pra tentar identificar a batida, pro cérebro assimilar que som era aquele. DJ que era DJ trazia "conceito", palavra tão achincalhada nos dias atuais... 

Renato Cohen, Marky, Anderson Noise, Luiz Pareto, Magal, Dolores, Zé Pedro, Mau Mau, Glaucia ++, Renato Lopes, Felipe Venâncio, Mauro Borges, DJ Hum, Memê, Edu Corelli,l que me apresentaram o novo, o underground, o fino, o irresistível...Os especialistas Julio Cesar, Diogenes Santos, Cesar Machia, Ricardo NB...Minhas primeiras referências da cena queer local e seus fundamentos musicais e underground. Sem contar os adolescentes precursores da e-music na cidade: Lucas, Tato e Gabi, Felipe Negrão e Julian Hideki, que discotecavam como adultos. A label Colors, dos queridíssimos irmãos Captain Wander e Jota Wagner, que fez me apaixonar perdidamente e eternamente pela house music...Os afters intermináveis da Alôca...O Skol Beats...

Sem saudosismos ou até mesmo sem desejar que as coisas voltem a ser como eram antes, a música boa e de qualidade faz muita falta nas pistas dos clubs...Ah, como faz! As exceções são raras e com tanta coisa ruim que tem por aí, nem o poste dança!

Pra finalizar, um belo hino, onde muita coisa começou:

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