"Victoria" apresenta primoroso exercício de cinema em 138 minutos de plano sequência



Carência afetiva transborda em atitudes deliberadas. Ao final de "Victoria", fiquei com esse pensamento e recordei de algumas que já tomei na vida (Quem nunca?).

"Victoria"(2015), filme alemão dirigido por Sebastian Schipper, conta a história da personagem homônima, uma imigrante espanhola que reside há três meses em Berlim. Após sair de uma balada, daquelas "bem inferninho", Victoria (Laia Costa) encontra um grupo de quatro rapazes que querem apenas se divertir. Meio desconfiada mas ao mesmo tempo cheia de necessidade de se pertencer a um grupo (ainda que não conhecesse os rapazes), Victoria parte para uma aventura sem ao menos imaginar qual desfecho a aguarda. Entre os rapazes, a afinidade com Sonne (Frederick Lau) é evidente e os dois criam um diálogo interessante e que praticamente guia o clima do filme na sua primeira meia hora. Mas o flerte é interrompido quando o grupo resolve pagar uma antiga dívida do ex-detento Boxer (Franz Rogowski). Victoria, impulsivamente, decide ajudá-los. E é aí que começa o pesadelo.

Adianto que "Victoria", pode ser considerado uma quase versão atualizada de "Bonnie & Clyde"(1967), misturada a pitadas de filme de romance, daqueles que a gente torce para que o casal fique junto no final. O carisma de Sonne é incrível e é impossível não sentir empatia por Victoria. E tem uma questão social bem interessante, mas não abordada explicitamente em cenas, como a situação de uma imigrante em um país desconhecido e que não domina a língua - Victoria era uma promissora pianista na Espanha, mas em Berlim, trabalha em um café - ou a questão dos rapazes que se comportam de certa forma à margem, como se aquela Berlim não os contemplassem socialmente. 

O que é mesmo incrível e o grande chamariz do filme é a sacada do tal plano sequência de 138 minutos. Sim, o diretor Sebastian Schipper faz com que a gente acompanhe a aventura de Victoria em uma tomada única, do início ao fim e em tempo real. Nos tornamos personagem da trama, o que em certas cenas nos coloca em uma posição de intimidade, nos distancia ou nos deixa literalmente sem fôlego, pois quando o filme engrena, a adrelina é forte. Em entrevistas divulgadas, Schipper afirma que o filme foi resultado da terceira tentativa de gravação do plano sequência. O esforço da equipe técnica (principalmente do trabalho de câmera de Sturla Brandth Grøvlen ) e dos atores (que dominam uma segura técnica de improviso) rendeu à produção um Urso de Prata no 65º Festival de Berlim. O filme foi uma das apostas da Alemanha como representante na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, mas não conseguiu a indicação por ser falado em inglês e alemão.

Lançado no Brasil no dia 24 de dezembro do ano passado, pouquíssimas salas receberam o filme alemão. Assista ao trailer de "Victoria" e não perca essa mega dica do blog NLDJ. Clique aqui e assista ao filme online. 

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