18.3.17

O Amor nos Tempos dos Apps


É gay, tem um smartphone, está solteiro e à procura? Com certeza deve ter algum aplicativo de relacionamento instalado por aí, não é verdade? Se negativo, pode parar sua leitura por aqui, porque este post não é pra você.

Sensação dos relacionamentos atuais, os aplicativos (ou apps) estão aí para aproximar pessoas, dar aquela forcinha no encontro da sua alma gêmea, colocar você na pista pra negócio, arranjar um cobertor de orelha pra uma noite de solidão, uma pulada de cerca, um papo e uma cerveja, uma suruba ou seja lá o que você procura. Tudo apenas um clique no seu Android, iPhone, iPod touch, iPad ou Blackberry OS. Instalá-los através da App Store ou Android Market/Play Store é a coisa mais prática que existe. O que as vezes não é tão prático é saber realmente o que os milhares de usuários que os habitam realmente procuram... 

Uma das características desses apps é colocar em evidência pessoas que estão próximas a você. Outra é que os perfis se repetem, até com as mesmas fotos e descrições. Falta criatividade quando a questão é seduzir alguém por imagem ou por texto já que todos são extremamente saudáveis (ainda que exigindo sexo bareback), lindos, discretos e sigilosos. E casados. E comprometidos. Mas uma coisa em comum é o que procuram: sexo. Apenas. 

Há exatamente um ano me viciei nessa porra, coisa de a cada cinco minutos dar uma olhada e ver quem estava por perto. Em casa, na rua, no shopping, no bar, na balada. No inicio a intenção era até encontrar um "namorado". Por que não? Ainda mais que estivesse próximo de casa. Afinal o app é uma rede geossocial e funciona pra isso, pra te mostrar quem está próximo e afim. Encontros foram muitos e as transas também. Tipo da situação de que se você não se controlar acaba por encontrar sexo todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Mas um tipo de sexo fisiológico, que no fim te deixa pior do que estava quando se deitou em uma cama desconhecida pra transar. O vicio foi tanto que já cheguei a marcar quatro encontros em um único dia. E sei que tem gente por aí que marca muito mais e o que era pra ser algo agradável e prazeroso, se tornou pura compulsão. Carência? Sei lá...

Diante de tantas possibilidades, como sobreviver e encarar os tempos em que os aplicativos se tornaram um dos meios (senão o principal) de se encontrar caras interessantes pra um possível relacionamento?

Uma coisa você aprende e bem rápido: apps de relacionamentos foram feitos pra pegação. Pelo menos a intenção da maioria é essa. Até hoje foram poucos os casos que ouvi onde relacionamentos duradouros começaram numa pequena tela touch. A exceção maior é de um amigo muito querido e que está feliz da vida com seu namoro, iniciado em um desses aplicativos. Tipo de coisa chamada destino, aquelas histórias que fazem com que você acredite que existe a possibilidade de que também aconteça com você. Mas isso leva tempo e de repente seu destino nem está traçado através destas redes, mas firmes e fortes a gente tenta. As vezes acertamos e as vezes quebramos a cara mesmo.


Como se trata de pegação, as preferências sexuais são sempre as mesmas. Se você é ativo, suas chances de um encontro crescem 100%. Se você é versátil, cai pra metade. Digo versátil considerando a possibilidade de não se satisfazer por completo, pois a maioria procura um cara ativo para suas transas. E o engraçado é que mentem quanto a isso. Talvez pelo fato de que assumirem sua preferencia como passivos, o machismo interno de cada um acaba por ferir seus instintos e necessidades reais. E a verdade é que todo mundo procura uma boa rola pra sua satisfação, mas a vergonha ou medo de afastar seu possível pretendente fala mais alto. Aí entram as enganações e omissões. Em tempos de práticas sexuais egoístas, se você não estiver adaptado às variações que essas práticas exigem, pode ficar eternamente sozinho. Ou acompanhado com seu belo e eficiente dildo. As vezes vale até mais a pena. Portanto, na hora da tal pergunta infame "O que você curte?", seja sincero e peça sinceridade.

O anonimato permite a presença de muitos homens casados e enrustidos. Ambos encontraram nos apps uma forma de colocarem seus desejos sexuais em prática e se é essa a sua predileção, pode se dar muito bem nessa categoria, já que um cara comprometido ou enrustido nunca irá te assumir perante qualquer situação. Mas ao menos as transas estarão sempre garantidas e isso é o que importa, não é verdade? Opções é que não faltam mas nunca sugira algo além de uma transa casual, senão eles vão cair fora rapidinho.

Um fato peculiar acompanhado nesse 1 ano de apps é observar as exigências: não fumante, não drogado, não afeminado, não chato, não feio, não gordo, não magro, não preto, não peludo, não velho, não-não-não e NÃO! Geralmente partem dos usuários que se classificam os mais sarados, os mais limpos, os mais discretos e os mais belos. Mas como se explica o número de sujeitos tão perfeitos e ainda assim disponíveis nesse mundão? É claro que cada um tem sua preferência ou exigência, assim como o que nos atrai, o que nos satisfaz e por aí vai. Mas quanto ao funcionamento de um aplicativo, alguns discursos soam como puro preconceito. O que procuram no final vai de acordo com a contra-proposta oferecida e um ponto é fato: tudo gira em torno de uma rola. Lembre-se disso. E muitos desses usuários "perfeitos" acabam por ter atitude no celular, mas na balada, no bar, no shopping ou na rua, passam por você e não dão sequer um "oi". Mas aí te encontram no aplicativo e começam um flerte chinfrim, com aquela história de que te viu sei lá onde mas não teve coragem de chegar junto. Sei...Uma boa rola passa sempre por cima de todas as exigências e perfeições. E acredite: um cara assim nunca irá te assumir e além de tudo deve ter defeitos homéricos...


Uma coisa que você também aprende é a urgência que certos usuários apresentam para partir logo rumo a um encontro imediato. Quanto mais rápido, melhor. Assim, papos com introduções como "O que você faz da vida" ou "Que tipo de música você gosta" nem cabem nessa situação. Pelo contrário. Vão entediar seu pretendente que na verdade está afim de uma coisa apenas: transar e nada mais. Portanto, fique atento a determinadas perguntas como: "Tem local?". Já é uma grande deixa e também uma conclusão de que esse encontro não irá durar mais do que algumas horas. E torça pra que o cara tenha pelo menos uma boa pegada porque além de tudo, essa urgência geralmente é o prenúncio de uma transa bem ruim.

Se de um lado existem os apressados, do outro existem os enrolados, aqueles que no inconsciente pensam que desejam algo além de um sexo casual. Aí batem altos papos, trocam altas intimidades, mas na hora do encontro te levam diretamente pra cama e aquele papo gostoso, iniciado no app e transposto pro Whatsapp, não passa de um breve sonho, uma breve historinha pra gay dormir. No começo até caía nessa e achava que havia encontrado um cara diferente, mas no final a gente aprende que é mais um tipo de perfil. Já cheguei a perder um mês inteiro conversando com um cara até que a transa rolasse e depois que rolou, nem um "Oi" no dia seguinte. Pensei que havia sido ruim pra ele, mas não, o que ele realmente queria era uma transa casual, mas tinha problema em aceitar seu perfil de putão. Nesses casos, aceite que dói menos e aproveite a situação gozando bem gostoso. Esse tipo de cara não vai mais te procurar. Ou até vai, mas somente naquele momento em que pintar o tesão. 


Em tempos de aplicativos, o mais importante é ter a autoestima em dia. No jogo que se torna a busca por um par podemos estar tão carentes e fragilizados que tomamos certas atitudes nem sempre assertivas. Como sair de madrugada, por exemplo,  ao encontro de uma pessoa que você nem sabe se existe, ou ainda correr sérios riscos diante de uma inconsequência. Sexo é bom e todo mundo gosta. As vezes na vida é interessante ter um pouco de aventura. Mas saiba os seus limites e até que ponto vale a pena se arriscar. Cuidado também com as fotos que você compartilha. Afinal, encontramos todo tipo de perfil e não sabemos de fato o destino dessas fotos. Existem muitos fakers cujo interesse é apenas o fetiche de ver quem está do outro lado. Já passei por uma situação em que o match compartilhou fotos minhas com amigos em uma mesa de bar. Foi uma situação constrangedora. Curiosidade existe e é saudável, afinal uma das intenções é esta, conhecer previamente quem está do outro lado. Mas evite troca de fotos inúteis, fotos intimas que mostram seu rosto e principalmente: se não estiver afim de trocar nudes, simplesmente não troque. Como diz um amigo, nas abordagens em que o usuário pede para ver nudes sem ao menos dar um "oi", ele nem dá uma resposta e bloqueia de imediato o infeliz.  

Com o tempo você acaba perdendo certas inocências perante à engrenagem desses aplicativos. Vai aos poucos entendendo a característica de cada um, o discurso dos caras e o que eles procuram. Uma evolução da paquera, já que ninguém precisa sair aleatoriamente na rua e exercer a antiga "caça". Aquelas das boas, que a gente olhava no olho, sentia cara a cara o tesão do outro e partia pra sedução ou pro sexo. Sim, era assim  antes, quando o amor não tinha um aplicativo pra fazer toda a mediação. Se era mais simples? Talvez. Se era mais fácil? Não sei, mas que temos um mundo de possibilidades nas mãos, isso é inegável. E muito boa sorte nessa sua busca, seja por amor, seja por sexo, seja por fetiche, seja por aventura ou seja lá pelo que for. Ainda que em tempos de apps, nunca se esqueça de que relacionamentos não chegam prontos e não possuem fórmula. Relacionamentos são construídos pela convivência, pelas afinidades e diferenças.

P.S. Ainda continuo a minha busca. Afinal não sou bobo, nem nada. Estou lá no Grindr, Growl, Hornet e Scruff, aprendendo a cada dia como lidar com o amor nesses tempos de apps...

1. As imagens que ilustram essa postagem são da campanha de verão 2015 da Diesel e sua Hero Fit Underwea, onde a aposta do conceito foi de encontro às selfies de aplicativos de pegação como Grindr e BoyAhoy.

2. O título dessa postagem é uma referência à obra "Amor nos Tempos do Cólera", de Gabriel García Márquez,  publicado em 1985. 
 
NA LÍNGUA DO JU ® - 2017