28.12.16

Os grandes destaques LGBT da TV em 2016

Foto: Bastidores "Sense8" - divulgação. Em 2016 a mídia nos apresentou mulheres, homens, transgêneros, cisgêneros, gêneros fluidos. Que venha 2017 com novos desafios!

Ao fim de tudo, 2016 entrará para a história do Brasil como uma virada conservadora, patrocinada por uma elite machista, xenófoba, preconceituosa. Nas bordas das sucessivas investidas truculentas contra as manifestações populares pela preservação das conquistas sociais, a sexualidade em suas diversas manifestações e expressões estiveram na pauta, visibilizando e naturalizando todas as formas de afetos e identidades.

Em “Liberdade, Liberdade” (Rede Globo), André, interpretado por Caio Blat e Tolentino, vivido por Ricardo Pereira, em 12 de julho provocaram milhares de brasileiros a se postaram diante da tela da TV para assistir a primeira cena de sexo entre dois homens em uma novela brasileira. A relação entre os dois personagens trilhava uma historia recheada de fogo e paixão, e neste capítulo ganha ares de desejo e intimidade fazendo explodir toda a volúpia quando, enfim, não resistem: se beijam, se despem, se abraçam e fazem sexo, terminando a cena nus, deitados sobre a cama de mãos dadas.

"Liberdade, Liberdade": Caio Blat e Ricardo Pereira na primeira cena de sexo entre dois homens em uma novela brasileira

Entre 05 e 21 de agosto aconteceu a primeira Olimpíada no Brasil, que contou com 27 atletas que vivem abertamente sua identidade LGBT. Competiram no centro olímpico no Rio de Janeiro nove gays, um recorde (atletas masculinos historicamente são mais reticentes a tornarem pública sua homossexualidade), 18 lésbicas e bissexuais, sendo um casal que competiu no mesmo time de hóquei. Nunca tantos atletas assumiram sua homossexualidade, com direito até a pedido de casamento em plena competição. Isso sem falar dos voluntários e artistas LGBTs que participaram do revezamento da tocha e da cerimônia de abertura dos Jogos.

Fazendo a linha fervida, Ferdinando, o famoso "concierge" da Pensão da Dona Jô, do programa humorístico do canal pago multishow, “Vai Que Cola”, teve seu próprio programa e já em sua segunda temporada. No formato de programa de entrevistas com uma plateia, “Ferdinando Show” trouxe entrevistas com personagens conhecidos do público e também com personalidades. O cenário reproduz a recepção de um hotel 5 estrelas e conta ainda com uma DJ, Zelda, fazendo a linha butcher, Nicole Bahls e belos assistentes de palco. No início de cada episódio, Ferdinando performa hits de famosas cantoras como Madonna, Katy Parri, Beyoncé, Sai, Lady Gaga, Ivete Sangalo, Wanessa e Shakira.


"É como se fosse um universo paralelo do personagem, é o sonho realizado do Ferdinando. Ele não gosta de trabalhar na Pensão da Dona Jô e sempre imagina ser o concierge de um hotel cinco estrelas. E as apresentações que ele faz na Quinta Gay aqui ganham mais glamour, têm figurino, coreografia e bailarinos", declarou Marcus Majella, ator e comediante que interpreta Ferdinando.

E todos nós ganhamos com o canal da internet “Põe na Roda”, para ver boa vídeos sobre a temática LGBT. Sua programação vem arrancando risos e fazendo pensar sobre a diversidade sexual humana com sketches do cotidiano das bees e por mostrar que o humor gay não é apenas fazer piadas sobre viado. Com vídeos lançados sempre às terças-feiras, às 11h24, o canal já abordou temas como a falta de água em SP – recomendando uma chuca consciente e os estereótipos gays. Pedro HCM, idealizador do canal declarou em uma entrevista: “Nunca me faltou trabalho, mas tinha pouca realização. Profissionalmente, acredito que exista espaço e muito público pra um canal gay e de humor na internet. O público LGBT ainda é pouco representado na mídia”.


Os participantes LGBT causaram também nos programas “The Voice Brasil” (Rede Globo) e X Factor Brasil (Band), de longe os realities shows mais inclusivos da TV brasileira! Tem queer, pintosas, lésbicas e muita gente talentosa. A quinta temporada do “The Voice Brasil” estreou com beijo gay, quando o participante Renan Zonta, de Curitiba (PR), foi aprovado com a música Highway to Hell e comemorou beijando o namorado, no primeiro programa da temporada, exibido no dia 5 de outubro. Já no “X Factor Brasil” (BAND), em sua temporada 2016, a paulistana VKiller e Jenni Mosello, de Curitiba, representaram a modernidade. O candidato Diego, de Osasco, não deixou por menos no programa da Band. Com figurinos provocantes ele mostrou toda sua androginia no palco e cantou muito e seguiu no top 12 da competição. Porém quem parou tudo mesmo foi o pai do competidor, que passou batom nos lábios durante a apresentação do filho para mostrar seu apoio.

Diego em performance do “X Factor Brasil”

Já “Sense8”, série da Netflix, apresentou oito pessoas ao redor do mundo descobrindo que são sensates - ou seja: compartilham sensações, pensamentos e experiências uns dos outros. A primeira temporada tem 12 episódios e está disponível completa na Netflix. Respeito á diversidade e a multiplicidade já começa quando a série é dirigida por Lana Wachowski (Matrix), uma mulher transgênero e não para por aí. Composta por 8 protagonistas de diversas partes do mundo onde metade deles não são americanos e nem europeus, mostrando sua diversidade étnica, cultural e sexual. Todos eles com bagagens bem distintas e com grande contraste de classes sociais, a série também conta com diversos casais, sendo um deles formado por duas lésbicas e outro gay. E toda essa diversidade é passada de uma forma inteligente e natural.

Cena de beijo gay de "Sense8", gravada na última Parada do Orgulho de São Paulo

A série da Rede Globo, “Nada Será Como Antes”, contou comum triângulo amoroso fora do convencional, formado por Bruma Marquezine interpretando Beatriz, Letícia Colin, vivendo Júlia, personagem irmã de Otaviano, vivido por Daniel de Oliveira. O trio viveu cenas picantes, beijos lascivos, numa relação amoral. Na mesma série, formou-se outro triângulo amoroso formado entre o diretor da TV Guanabara, Aristides, vivido por Bruno Garcia, o galã Rodolfo, interpretado por Alejandro Claveaux e uma de suas fãs.

Bruna Marquezine e Letícia Colin se beijam em "Nada Será Como Antes"

A série “Liberdade de Gênero”, lançada pelo canal GNT, com 10 episódios e 14 histórias de pessoas que viram suas vidas transformadas ao dizer para si mesmas e para o mundo que sua identidade de gênero não era aquela atribuída pela sociedade. João Jardim, o diretor, procurou traçar um painel de vidas e possibilidades de vivenciar o corpo, o desejo cujo fio condutor é a “necessidade da força para assumir quem elas são independente das consequências” como contou em uma entrevista. Entre famosos e desconhecidos, João tentou construir conjuntamente a história. “Eu fui perguntando como elas queriam ser retratadas. O roteiro foi feito totalmente em conjunto com cada um dos personagens”, conta.

O cantor transexual Erick Barbi na série “Liberdade de Gênero”, lançada pelo canal GNT 

O diretor ainda comenta que “Não permitir que uma criança brinque com o que deseja é uma das maiores agressões. Aos adultos parece uma bobeira, algo pequeno, mas não é. O medo da rejeição, de estar fazendo algo errado e até mesmo de aceitar quem se é de verdade e seus gostos nos acompanham para o resto da vida e rege nossas atitudes” e conclui dizendo que ”violência não é apenas a agressão física, mas tudo aquilo que machuca outra pessoa”.

Com este resumo sobre a temática LGBT na televisão brasileira, quisemos demonstrar que não existem pessoas iguais, por mais que se tente impor um padrão, um ‘’normal’’, a diversidade nos interpela a todo o momento. Que bom que 2016 nos presenteou com esse painel LGBT de possibilidade de vida, sexo e afetos. Personagens, por mais fictícios que sejam, são representações de pessoas como nós, logo André e Tolentino, Ferdinando, Renan Zonta, VKiller, Diego, Lana Wachowski, Beatriz, Julia, Otaviano, Aristides e Rodolfo representam a mudança na forma como os LGBTs estão sendo retratados na TV brasileira.

Se, anteriormente, predominavam personagens secundários e estereotipados (o gay sempre retratado como estilista, por exemplo, ou a lésbica que se veste sempre com roupas consideradas do gênero masculino), hoje em dia esses personagens assumem papéis de protagonistas na grande mídia - ainda que não em todas as emissoras - e assumem os mais diversos “estilos”. De tudo o que vivemos em 2016, guardarei na memória a imagem de Tiago Leifert, que naturalmente, depois da apresentação do cubano, comentou: “emocionado Alexey foi beijar o namorado”.

Em tempos de conservadorismo exacerbado, culturalmente vivemos um novo tempo, em que preconceitos começam a ser quebrados ou pelo menos enfrentados. É preciso atentar, portanto, para a importância da discussão da pluralidade sexual humana e sua expressão na sociedade contemporânea, como um fenômeno essencial na construção de identidades e realidades. As intensas transformações sociais que se referem à sexualidade precisam ser analisadas para que se perceba a evolução ou a estagnação dos debates sobre a multiplicidade identitária e sexual.

Autor: Paulo Reis - Doutor em Educação, Ativista LGBT e Consultor em Gênero e Direitos Humanos
Contato: re_pare@yahoo.com.br
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