"Lampião da Esquina" e o desbunde de uma época


O grande marco internacional do movimento LGBT é a revolta de Stonewall, que foi uma série de violentas manifestações espontâneas de membros da comunidade contra a invasão da polícia de Nova York que aconteceu nas primeiras horas da manhã de 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, localizado no bairro de Greenwich Village, em Manhattan, em Nova York, nos Estados Unidos, data que se internacionalizou como o "Dia do Orgulho Gay".

No seu rastro, os anos 70 trouxeram uma mudança radical no comportamento jovem. Em uma década, ele foi da esperança à desilusão, do engajamento político ao desbunde total. O que começou com protestos contra a Guerra do Vietnã, com lutas contra os regimes autoritários na América Latina, queima de sutiãs pelas feministas e outros embates ideológicos terminou no niilismo e no desencanto do punk ou num crescente hedonismo que daria o tom nas décadas seguintes.

Para quem é jovem, no Brasil a década de 1970 foi marcada pelos movimentos sociais que lutaram contra a opressão da ditadura militar, em busca de liberdade de expressão. E foi neste contexto que surgiu o jornal alternativo O Lampião da Esquina (1978-1981), que trouxe várias discussões sobre sexualidade, entre outros temas polêmicos, sendo este o primeiro veículo de comunicação de massa a abordar a homossexualidade de maneira pontual. Sua estratégia política era o fortalecimento da identidade homossexual (através da valoração positiva das categorias “bicha” e sapa) associado à construção de uma política fortemente antiautoritária.

Ele nasceu no eixo Rio de Janeiro - São Paulo, com a intenção de desmistificar a imagem folclórica de que lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais eram seres marginalizados e movidos por impulsos meramente sexuais. O foco deste pequeno grande jornal alternativo era quebrar os preconceitos vigentes e delimitar a construção da identidade homossexual positiva para a sociedade.·.

O conselho editorial do Lampião da Esquina era formado por onze editores, sendo eles: os jornalistas: Adão Acosta Aguinaldo Silva (atual novelista da Rede Globo), Antônio Chrysóstomo, Clovis Marques, Gasparino Damata e João Antonio Mascarenhas; o artista plástico Darcy Penteado; o crítico de cinema Jean Claude Bernardet; o antropólogo Peter Fry; o poeta e crítico de arte Francisco Bittencourt; e o cineasta e escritor João Silvério Trevisan. Entre as várias celebridades da época que passaram pelas suas páginas, em julho de 1979, encontramos o ex- presidente Luís Inácio Lula da Silva na capa do exemplar, em que fala sobre "greves, bonecas e feministas".

Sua estrutura apareceria dividida em sete seções: “Opinião” (o equivalente ao editorial), “Ensaio”, “Esquina” (seção com artigos e notas variadas), “Reportagem”; “Literatura”, “Tendência” (seção cultural que se dividia em “Livro”, “Exposição”, “Peça” etc.), e “Cartas na mesa”. A partir do número cinco é publicada uma nova seção, “Bixórdia”, de fofocas em geral.


Para quem deseja conhecer melhor este jornal e toda sua verve sarcástica, o Grupo Dignidade, digitalizou e colocou à disposição no endereço: http://www.grupodignidade.org.br/projetos/lampiao-da-esquina/ os 37 números do Lampião da Esquina.

E foi com uma grata surpresa que me chegou pelas redes sociais a noticia do lançamento do documentário sobre este jornal que era mais gay do que podemos imaginar. O filme de Lívia Perez, segundo matérias veiculadas pela internet, vai direto ao ponto: é o tipo de documentário-padrão, sem takes artísticos ou dramalhão. O importante está ali, na contação de história dos entrevistados que fizeram do Lampião o que ele se tornou.

Para ilustrar esses causos, a arte do filme faz montagens divertidas com trechos do jornal. E a trilha sonora, assinada por Paulo Azeviche, relembra canções homoeróticas brasileiras, como "Androginismo", da dupla de irmãos Kleiton e Kledir, que nos anos 70 formavam a banda Almôndegas. "Quem é esse rapaz que tanto androginiza, que tanto me convida pra carnavalizar? Que tanto se requebra no céu de um salto alto, que usa anéis e plumas a lantejoulizar?", diz a letra – mais que propícia.

Veja o trailer:


As entrevistas do filme mostram o desenrolo manual da profissão na época, a dificuldade em manusear gravadores enormes, a diagramação manual e o enfrentamento do preconceito para conseguir distribuir o Lampião pelas bancas do Brasil. O escritor João Silvério Trevisan relembra que foi preciso muita bateção de pé para que distribuidores e jornaleiros topassem comercializar aquela pequena publicação com manchetes tão atrevidas. "Houve um momento em que um grupo paramilitar começou a soltar bomba em bancas [de jornal] e deixava panfletos dizendo: 'enquanto vocês venderem tais jornais, nós vamos atacar vocês'. E lá estava o nome do Lampião", relembra Trevisan no documentário.

Era um tempo de bons costumes e o jornal incomodava a sociedade ao denunciar o machismo da época (que nos soa tão familiar). Para se ter uma ideia, “A volta do esquadrão mata‐bicha”, “Repressão: essa ninguém transa”, “Louca e muito da baratinada” e “Fortíssimo babado” eram algumas de suas manchetes.

"Viado gosta de apanhar? Uma viagem ao mundo dos sadomasoquistas." Foi a última manchete do Lampião da esquina, que encerrou definitivamente, seu expediente em junho de 1981. Ainda bem que agora temos o documentário de Lívia para registrar a existência desse clássico marginal do jornalismo brasileiro. A diretora, disse que o "O filme deve continuar participando de festivais e temos intenção de lançá-lo nos cinemas de todo Brasil", revela. “Ele também será exibido no Canal Brasil, que além de coprodutor também licenciou o filme”.


Autor: Paulo Reis - Doutor em Educação, Ativista LGBT e Consultor em Gênero e Direitos Humanos
Contato: re_pare@yahoo.com.br

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