19.8.16

Os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos 2016 e a questão LGBT


Ao final do século XIX, o barão de Coubertin teve a ideia de reinventar os Jogos Olímpicos da Antiguidade, em uma nova versão que permitia a participação de atletas de todo o mundo; os Jogos anteriores permitiam que apenas atletas do sexo masculino de origem grega participassem das competições.

Para o barão de Coubertin, o renascimento dos Jogos Olímpicos não era apenas um sonho, mas também uma consequência dos avanços científicos e culturais do século XIX. “Os homens começaram a viver menos isoladamente, raças diferentes aprenderam a conhecer e a entender o outro melhor e, ao comparar suas forças e conquistas na arte, na indústria e na ciência, uma rivalidade honrosa surgiu entre eles, encorajando-os a atingir feitos ainda maiores”, diz o barão na introdução do Relatório Oficial dos Jogos Olímpicos de 1896, já apresentando os conceitos do que posteriormente se tornariam os valores do Olimpismo: respeito, amizade e excelência.

O certo é que nesta época havia um consenso entre ciência e religião que entendiam o sexo heterossexual como o sexo normal. Praticas e desejos sexuais entre pessoas do mesmo sexo eram encarados ou como doença, ou pecado, ou crime, na maioria dos países de então.  

Nestes 120 anos muita coisa mudou no mundo e também com relação aos desejos e práticas sexuais. Graças a muita gente que lutou e morreu para que a sexualidade fosse encarada com maior naturalidade. No entanto hoje, de acordo com relatório anual sobre homofobia divulgado pela Ilga (sigla em inglês para International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association), ao menos 78 países ainda contam com leis que criminalizam práticas homossexuais e em cinco deles aplicam pena de morte.

Diante do atual quadro mundial de discriminação, desde 2003, a Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional (COI) passou a se pronunciar a favor de que atletas que tivessem passado por cirurgias de mudança de sexo pudessem competir sob o novo gênero nos Jogos. E, em respeito às pessoas transexuais, a Comissão Organizadora desses jogos olímpicos não divulgou nem o nome e nem a quantidade de atletas trans que estarão participando das competições. 

Por parte da organização lgbts tem sido respeitados e valorizados, tanto que há voluntários e artistas lésbicas, gays, bissexuais travestis e transexuais que participaram do revezamento da tocha e da cerimônia de abertura dos Jogos. Um exemplo é a cartunista Laerte conduziu a tocha em São Paulo ao lado de Sabrina Sato no dia 24 de julho, reforçando a luta contra o preconceito.


E na cerimônia de abertura, cinco dos ciclistas que puxavam as delegações dos países eram transexuais, incluindo a famosa modelo Lea T, que abriu caminho para os atletas brasileiros. A filha do ex-jogador Toninho Cerezo, que foi à abertura apreciar a performance da filha, declarou que “A ficha caiu no dia seguinte quando eu consegui assistir tudo direitinho", e mais, “Antes de entrar no gramado, me emocionei por entrar em um lugar onde meu pai já tinha jogado um lugar onde outra pessoa do meu sangue já havia posto os pés. Pensei, 'meu pai já esteve aqui e agora quem está aqui sou eu'. Quem diria que um dia eu iria pisar nesse estádio", refletiu.

Apesar da importância de sua participação no evento, Lea mantém a humildade. "Não quero pensar que fiz história porque acho que não mudei nada. Vejo que a vida de outras meninas é tão mais puxada, elas enfrentam situações tão mais duras que as que eu enfrento, e ainda assim elas seguem em frente, lutando e batalhando, que acho que a gente tem que levantar a bandeira é dessas meninas, elas é que fazem a história, elas é que são as guerreiras. Eu simplesmente representei", afirma.


No dia 09 de agosto, após cerimônia de entrega de medalhas do rugby, que decretou a seleção feminina da Austrália como grande campeã, Marjorie Enya, voluntária nos Jogos Olímpicos pegou um microfone da organização e pediu a amada, Isadora Cerullo jogadora do time campeão em casamento. Acompanhado por grandes balões em forma de coração e pelas atletas da seleção, o pedido foi aceito prontamente. Um detalhe chamou atenção: a falta de uma aliança foi suprida por um grande laço amarrado no dedo de Izzy e Marjorie, selando o “amor olímpico”.


Outra declaração de amor em cadeia nacional foi feita na edição de quarta-feira, 10 de agosto, do programa Globo Esporte, da TV Globo. A judoca Rafaela Silva, de 24 anos, que dois dias antes havia conquistado a primeira medalha de ouro para o Brasil, contou que deve muito de sua conquista à companheira Thamara Cezar, que cuida de tudo o que a atleta precisa para que ela só se preocupe em treinar, lutar e vencer. “Tudo o que eu precisava, ela estava ali, à disposição, para fazer; então ela também é muito importante nessa conquista”, reconheceu Rafaela.


Após a vitória de Rafaela, muito se falou do ouro conquistado pelo Brasil no Judô feminino, no entanto, um post, divulgado através do Face, colocou as coisas no lugar:



Este post traduz em palavras um sentimento que infelizmente tem vindo á tona e empanado o brilho da liberdade e respeito promovido pelos organizadores deste evento internacional.

O comportamento homofóbico da torcida brasileira que vai aos estádios e a outras competições esportivas tem incomodado os atletas nessas Olimpíadas Rio 2016. A torcida grita “bicha” quando o time adversário avança em campo. A situação, que foi vista em outros jogos, repetiu-se na noite deste domingo (8/7), enquanto a Seleção Brasileira enfrentava o Iraque. O constrangimento tem sido tanto que a integrante da seleção norte-americana de futebol, Megan Rapinoe, que é lésbica, reclamou das ofensas. “É pessoalmente doloroso”, disse a jogadora. “Creio que seja algo do comportamento coletivo que toma conta das pessoas um pouco”, afirmou ao jornal Los Angeles Times.


Os gritos de “bicha” foram ouvidos nas partidas de futebol feminino. Uma delas foi no jogo entre o Canadá e Zimbábue, em São Paulo; enquanto a outra foi o jogo entre os Estados Unidos e a Nova Zelândia, em Belo Horizonte, onde Megan estava presente. Os dois episódios aconteceram na quarta-feira, dia 3. 

Apesar dos avanços alcançados desde as olimpíadas de 1896, essa reação pública demonstra como a orientação sexual ou identidade diferente daquela propagada pela heterossexualidade, ainda envolve muita negação e rejeição. Por isso que muitos lgbts tem receio de revelar sua identidade ou orientação para a família, além do medo de sofrer com a violência das ruas, com o preconceito nos espaços de trabalho, etc. Aparentemente vivemos num momento libertador, de “sair do armário”, já que admitir nossa identidade tira o peso do segredo, de uma dor solitária. 

Acontece que esse “assumir-se” é uma resposta à pressão social por uma definição e ao assumir publicamente nossos desejos sexuais, continuamos a ser considerados um pouco menos humanos, mesmo com medalhas de ouro balançando no peito.

Autor: Paulo Reis - Doutor em Educação, Ativista LGBT e Consultor em Gênero e Direitos Humanos
Contato: re_pare@yahoo.com.br



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