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No "Dia dos Pais", uma homenagem ao meu filho

Querido filho...

Até ontem não sabia o que escrever, mas hoje lembrei que domingo próximo é o "Dia dos Pais" e resolvi fazer uma homenagem à você, meu filho e dizer tudo o que penso e tudo o que sinto, pois só agora é que começo a compreender realmente o valor dessa data. Acho que estou ficando velho demais...

Escrever sobre a paternidade para mim é sempre um prazer. O mesmo prazer de ouvir Fernanda Takai e o Patofu cantando "Ovelha Negra", que você batizou de “Baby Baby” desde a primeira vez que você entrou no carro vermelho na saída do abrigo para nosso primeiro passeio.


Talvez seja porque desejei ardentemente ser pai num tempo em a nossa sociedade heterossexista dissesse que isto não era possível, e tivemos que remar contra a maré para nos desviarmos das armadilhas jurídicas num tempo em que a união estável homoafetiva não era ainda reconhecida, e os juristas entendiam que família era formada por um pai e uma mãe. Daí minha eterna gratidão ao juiz da Vara da Infância e Juventude de Campinas, Richard Paulro Pae Kim.

Desde o inicio deste processo, mesmo antes de você existir em minha vida, desejava proporcionar a possibilidade de o mundo ter uma pessoa mais humana, generosa, respeitosa, e assim me assustei quando fomos brincar no SESC, e você me disse que um brinquedo era de menina porque era colorido, estampado. Tempos depois, me assustei novamente quando você me disse que menino não veste cor de rosa. De propósito usei uma camisa cor de rosa e uma calça vermelha, você espantado me disse: “pai, menino pode usar vermelho?” e eu lhe respondi: “pode, pode usar verde, vermelho, azul, amarelo, estampado, listrado, o que quiser”. E eu vibrei quando você me pediu uma calça vermelha.

Foi muito legal chegar à casa de minha mãe para comemorar o Natal e ela correr e pegá-lo pelas mãos e apresentá-los às vizinhas dizendo fulana, vem ver meu neto. Uma emoção indescritível sabê-lo acolhido e amado por minha família também. E você não parou de me surpreender com seu gosto por vegetais e livros, tanto que em nossa viagem à Paraty, durante a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), você me pediu para ir ao mercado comprar brócolis e ir à livraria. Sua prima Amanda, que detesta verduras, não se conforma até hoje o fato de você comer salada verde.


Muito divertido vê-lo gritar depois de Gal Costa cantar Neguinho, de Caetano Veloso, durante o show de abertura da FLIP: “Maravilhosa, gostosa”, e as pessoas se virarem para ver quem estava gritando. Tão surpreendente quando assisti-lo a ensaiar passos de samba durante a apresentação de Fabiana Coza no SESC Campinas.

Dizem que é o pai que é o alicerce que sustenta toda a estrutura familiar. Pura balela, em meu caso, é você, meu menino Wesley, que é o elo entre a razão e a emoção de minha existência, que me sustenta e me move. Suas atitudes, suas estripulias, seu sorriso, seu abraço gostoso e seu modo de agir que me sustentam e me levam adiante, alimentam meu desejo de ser um ser humano melhor.

Obviamente a vida não é um comercial de margarina…Sei que vivemos numa bolha, cercado por parentes e amigos que lutam pelos direitos humanos, respeitam as diferenças e a diversidade humana, e por isso me preocupo com o seu futuro e com as experiências desagradáveis que você poderá ter com pessoas intolerantes, mas o que eu posso lhe oferecer é este alicerce de amor e camaradagem cotidiana em que vivemos. E sinto que estou no caminho correto quando o vejo colocar no bolso a embalagem do doce, chocolate ou bala para descartá-la no lixo mais próximo. Meu filho não polui o mundo!

Lembro de você vendo uma drag pela primeira vez e me perguntar se era menino ou menina, aliás uma pergunta recorrente em nossas andanças pelos espaço lgbts desta cidade, e eu disse que era um menino vestido de menina, e você achar natural, tão natural quanto subir no trio elétrico na Parada LGBT, ou ir ao casamento de nossas amigas Valéria e Fabiana, e chamá-las até hoje de “as noivas”.

Quero lhe dizer que não existe medida para o amor, ou para o sentimento de profunda realização que me enche a alma toda vez que olho para você e o sinto próximo a mim. Cada vez que você corre e me abraça, me enche de amor; cada vez que me chama de pai e me pede ajuda, fazendo de mim um herói que não sou. Porque você é o melhor que há em mim.

A vida tem uma forma estranha de nos ensinar…Sempre achei estas datas comemorativas extremamente comerciais, afinal para que serve o "Dia dos Pais", o "Dia das Mães", se todos os dias deveriam ser nossos dias? Ainda bem que hoje existe uma movimentação escolar em torno do dia da família. Família que somos eu, você o Marcos e o Fred, nosso poodle, eternizada em uma foto, impressa numa caneca pela tia Val e sua irmã postiça Fer.


Ao escrever esta carta, busco lembranças de fatos, sentimentos, palavras, afetos que nos aproximaram e mesclaram nossas vidas, percebo então que o tempo passa rápido demais, já são três anos, três natais, três aniversários, viagens, cinemas, peças teatrais, parques, brinquedos, livros, choros, broncas, sorrisos e abraços. Você não sabe, mas fez uma revolução em minha vida material e emocional, e ao olhar para você percebo que ainda continuo sonhando com e por você.

No meio de tanto afeto, há gente lá fora que diz que não somos uma família, que eu não posso ser seu pai, que minha ascendência sobre você é nefasta. Como assim? Ontem, ao buscá-lo na escola, você correu, abraçou e me beijou. Ao assistir essa cena, sua professora me disse: esse menino não precisa do nosso abraço, ele tem o melhor abraço e o melhor beijo do mundo.

Ela se enganou: quem tem o melhor abraço e o melhor beijo do mundo sou eu.


Autor: Paulo Reis - Doutor em Educação, Ativista LGBT e Consultor em Gênero e Direitos Humanos
Contato: re_pare@yahoo.com.br
 

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