19.8.16

Atletas olímpicos de países com leis anti-gay podem sofrer represálias após serem tirados do armário a fórceps


Nico Hines, jornalista heterossexual, do site The Dayle Beast, usou um aplicativo de relacionamento utilizado por homossexuais, para conversar com usuários dentro da Vila Olímpica. O americano usou as informações coletadas e a troca de mensagens para escrever um artigo "tirando todos do armário". Agora, alguns atletas correm risco de vida já que em seus países há leis que condenam o relacionamento amoroso entre duas pessoas do mesmo sexo. Outros, casados e não assumidos, terão de se explicar para suas famílias.

O nadador Amini Fonua, de Tonga, usou seu perfil no Twitter para condenar a atitude de Hines ao expor a vida privada dos atletas:  

"Um jornalista de merda, hétero, entrou no Grindr na vila olímpica, viu que tinham muitos atletas gays, pegou as informações de cada um e publicou num site. Alguns desses atletas não estavam fora do armário (sair do armário no meio esportivo é algo BEM complicado), outros vinham de países onde ser gay é ilegal (eles podem ser presos, impossibilitados de jogar pra sempre, sofrerem atentados, até ser mortos), e, como o nadador da foto aqui falou, alguns tem cerca de 18 anos e deveriam ter o direito de escolher quando e onde sair do armário (cada pessoa deve decidir a hora de falar para suas famílias e amigos). Agora imagina esses atletas, que treinaram nos últimos 4 anos, além da cobrança de participar de uma olimpíada, tendo que competir no meio dessa montanha russa de emoções. Um jornalista escroto desses não merece ser chamado de jornalista. Gostaria que a vida dele se fudesse com isso, que ele recebesse mil processos no cu, mas eu tenho certeza absoluta que nada vai acontecer com ele, muito antes pelo contrário, só vai ficar mais famoso."

No artigo, chamado "Consegui três encontros no Grindr em uma hora na Vila Olímpica", o autor detalha a facilidade com que conseguiu marcar seus encontros, não somente pelo Grindr, como também por outros apps do tipo, como Hornet, Tinder e afins. No texto ele afirma que não tinha intenção de abordar exclusivamente os atletas gays, embora sua matéria foque somente eles. "Um viveiro de atletas em festa, pegação, e sexo, sexo, sexo", comentou.


Em seu texto, Hines faz menção a um atleta oriundo de um país da Ásia Central, onde a homossexualidade é extremamente criminalizada e lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais vivem praticamente em situação de risco de vida extremo. Ao divulgar seu artigo, o jornalista levantou a polêmica sobre o limite da ética jornalistica.

Em sua conta no Twitter, Amini Fonua, nadador que está no Rio para os Jogos e nasceu em Tonga, país onde os homossexuais são violentamente criminalizados, criticou de forma pesada o trabalho do jornalista do "Daily Beast". "Algumas dessas pessoas que você tirou do armário são meus AMIGOS. Com família e vidas que serão afetadas para sempre", disparou Amini, que publicamente se declara homossexual.


"Imagine um espaço onde você pode ser você mesmo, se sentir seguro, sendo arruinado por alguém que acha que tudo é brincadeira?", escreveu o nadador em outro post. "Nenhum heterossexual saberá alcançar a dor de revelar a sua verdade. Não tenho nem palavras, só consigo chorar", complementou Amini. E continua “Ainda é ilegal ser gay em Tonga, e enquanto sou forte para enfrentar isso, nem todo mundo consegue. Respeite isso", continuou o atleta em seu desabafo. "Vergonha deste cara desumano que achou que seria divertido colocar em risco a vida dos atletas desta vila", detonou Amini.

Por outro lado, com seu artigo Hines também desagradou muitos jornalistas pelo mundo afora, tanto que o redator do site "MIC.com", Mathews Rodriguez, publicou um desagravo sobre esta matéria em que faz referência ao limite ético da profissão de ambos: “Para referência, o código de ética da Sociedade de Jornalistas Profissionais tem uma seção inteira sobre 'minimizar os danos". Nele, está escrito "O jornalismo ético trata fontes, temas, colegas e membros do público como seres humanos merecedores de respeito'", escreveu.

Pedido de desculpas

O espaço onde estava publicado o texto de Hines foi substituído por um pedido de desculpas do "Daily Beast". No texto, o site explica que ainda tentou reparar alguns danos do artigo do editor, removendo alguns pontos de crítica, mas acabou por decidir retirá-lo do ar.

"O artigo não teve a intenção de prejudicar ou degradar membros da comunidade LGBT, mas intenções não importam os impactos, sim. Nossa esperança é que, ao remover o artigo que está em conflito com nossos valores bem como com aos quais aspiramos como jornalistas demonstre quão seriamente levamos nosso erro", diz o "Daily Beast".

Depois do leite derramado não há perdão que retorne o leite ao seu local de origem, por isso desejamos que esses atletas sofram o mínimo possível às consequências deste ato irresponsável e de extrema homofobia.

Autor: Paulo Reis - Doutor em Educação, Ativista LGBT e Consultor em Gênero e Direitos Humanos
Contato: re_pare@yahoo.com.br

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