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O perigo da Ideologia de Gênero


As chamadas tecnologias da informação se infiltraram em mossas vidas com uma velocidade avassaladora. Hoje em dia as redes sociais trazem efeitos no nível de compreensão da vida social, já que é difícil traduzir em 140 caracteres, ou toques, a complexidade de um pensamento, de uma ideia. E assim, todos os dias somos bombardeados com inverdades, ideias distorcidas, preconceitos, estereótipos e muitos de nós caímos em armadilhas teóricas que nos manipulam, sem o sabermos. Por isso se faz necessário estarmos atentos para contestarmos as visões simplistas, e buscar informações que sejam multi-inter-transdisciplinares.

Ler é uma das formas mais populares de exercitar os nossos neurônios para uma visão crítica daquilo que aparece cotidianamente em nossa tela de computador. Embora eu me coloque no grupo de pessoas que usam a internet diariamente como fonte de busca e de troca de informações, não dispenso as formas tradicionais de leitura e comunicação. A facilidade de acesso às redes sociais aguça a curiosidade por temas diversos, mas pode nos deixar preguiçosos de aprofundar nos assuntos. Torna a cultura rasa e nivelada. Cultura e conhecimento são ativos que diferenciam as pessoas e as tornam heterogêneas na vida profissional e pessoal. Essas diferenças fazem nossa sociedade rica. Precisamos usar as novas fontes como ferramentas que ajudem a ampliar nossas culturas e sabedorias, e prestar atenção nesse fenômeno perigoso da superficialidade. Prova disso é o debate que se travou sobre a chamada “ideologia de gênero”, a partir dos Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação. Os deputados e vereadores em todo o país, que defendem ideias conservadoras, criaram uma falsa premissa (que são informações e dados que servirão de base para um raciocínio, análise de detalhes que levarão a uma conclusão), uma falácia (que é uma aplicação incorreta de um princípio lógico válido), uma grande distorção, que de tanto ser repetida, transformou-se em verdade para quem segue, de forma acrítica e sem discernimento dessas ideias.

A principal alegação para a defesa da “ideologia de gênero” é que ela é uma conspiração internacional que, por meio da educação, quer “perverter” as crianças, ensiná-las a ser gays e destruir a família dita tradicional. Quando se fala em “ideologia de gênero”, passa-se a impressão de que estes termos - que, para as mentes desavisadas, se transformaram em um conceito - deriva de uma cabeça pornográfica, sem refletir a realidade. Para os criadores e difusores desta distorção epistemológica (a epistemologia trata da natureza, da origem e validade do conhecimento, e estuda também o grau de certeza do conhecimento cientifico nas suas diferentes áreas, com o objetivo principal de estimar a sua importância para o espírito humano), gênero deve substituir o uso corrente da palavra sexo, e refere-se ao papel socialmente construído e não uma realidade e por ser socialmente criado, pode-se criar quantos gêneros/sexo quisermos inclusive aqueles associados à pedofilia.

Richard Miskolci, doutor em sociologia, professor da UFSCar e coordenador do Quereres - Núcleo de Pesquisa em Diferenças, Gênero e Sexualidade, em seu artigo Pânicos Morais (http://www.scielo.br/pdf/cpa/n28/06.pdf), nos diz que pânico moral é aquele que emerge “a partir do medo social com relação às mudanças” consideradas ameaçadoras “à sobrevivência da instituição em seu papel de mantenedor de toda uma ordem social, hierarquia entre os sexos, meio para a transmissão de propriedade e, principalmente, valores tradicionais”. E é isso que os donos da moral e dos bons costumes sentem diante da desconstrução e problematização da vida social heterossexualmente organizada. Para colocarmos os pingos encima de seus devidos “iis”, podemos dizer que “ideologia”, é um conceito básico das ciências sociais. Ideologia todos nós temos, “ideologia de gênero” também, conservadora ou convencional; mais crítica ou radical; mais machista ou mais feminista. O maior problema reside no fato de empregar o termo “ideologia de gênero” só para as feministas, para os gays, lésbicas, travestis e transexuais, ou para quem critica as concepções dominantes de uma continuidade entre sexo, gênero e sexualidade, ou seja, entre pênis, heterossexualidade, desejo sexual por vagina, ou vagina, heterossexualidade, desejo sexual por pênis.

Como estas ideias aparecem em nossas telas de computadores e pairam sobre o nosso imaginário social? Por exemplo, o jornal “O Dia”, em 20 de maio de 2016, publicou a seguinte nota: “A pastora e cantora mineira Ana Paula Valadão usou as redes sociais, na manhã desta sexta-feira, para criticar a 'ideologia de gênero' usada por uma marca de roupas. De acordo com Valadão, 'homem se veste como homem' e 'mulher se veste como mulher'. Ana Paula disse estar indignada, pois "acredita que a [sociedade] está provocando" que todos "aceitem com passividade a ideologia de gênero”.

Ora, nossa sociedade ocidental aceitou passivamente a ideologia de gênero que propõe constantemente a heterossexualidade como regra, como norma para todos os seres humanos. Quando nascemos adentramos num mundo ordenado a partir desta premissa, fugir deste paradigma é complicado tanto para o indivíduo quanto para as pessoas mais próximas deste. No entanto, é bom esclarecermos que, ao falarmos em sexo, estamos nos referindo à presença de aparelho genital e outras características fisiológicas que diferenciam os seres humanos como machos e fêmeas; além destas, a partir de pesquisas recentes, também o código genético precisa ser considerado na constituição do sexo, o que complexifica as definições neste âmbito, cujo principal exemplo são as inúmeras formas de intersexualidade.

Já ao nos referirmos à sexualidade, estamos falando de práticas erótico-sexuais nas quais nos envolvemos, bem como pelo desejo e atração que leva um indivíduo a expressar-se sexualmente e tem a ver com a “orientação sexual”, que comumente classifica as pessoas em “heterossexuais”, “homossexuais” e “bissexuais”. E quando falamos em gênero, estamos falando da formação de um aparato de regras e padrões sociais de construção corporal e comportamento que configuram a nossa identidade social a partir do substrato físico-biológico, do que resultam identificações com o masculino e o feminino, bem como as múltiplas variantes que desviam da norma, como androginia, travestismo, efeminação ou masculinização, por exemplo.

Dito de outra forma, sexo é o biológico, sexualidades são os aspectos sociais e gênero tem a ver como nos sentimos e nos expressamos. Sexo, sexualidade e gênero estão ancorados no corpo físico humano e a isso os teóricos dão o nome de corporeidade, que não se refere apenas ao conjunto de órgãos e partes do corpo humano, mas envolve também a relação consigo mesmo e com outras pessoas, com a natureza e as divindades.
Somos seres plurais e diversos quanto à maneira de ser, sentir, raciocinar, agir e perceber a vida. Essas multiplicidades e diferenças igualmente se aplicam à forma como nos relacionamos afetivamente e/ou sexualmente com outras pessoas. Isso nos permite dizer que não há um modo único de relação, que supostamente seja “natural”, “certo” ou “normal”, mas, ao contrário, as possibilidades são inúmeras.

Em vez de respeitar as diferenças como um valor humano, muitas pessoas consideram apenas o modelo de conduta e/ou pensamento que adotam como o melhor e superior aos demais. E assim, atribuem características negativas a determinados padrões envolvidos nesta multiplicidade humana. Os significados sociais negativos atribuídos a determinadas essas características são utilizados para justificar a hierarquia social e o tratamento desigual.

Desde o nascimento, a família, a medicina, a escola e as instituições religiosas, transmitem a cada um dos sexos biológicos a maneira supostamente certa de se comportar, as aspirações que se pode ter os direitos e as responsabilidades que estão associados ao masculino e ao feminino, como se fossem mundos separados. Quando uma criança nasce com vagina, ela ganha roupinhas cor-de-rosa e se espera que ela seja recatada, delicada, meiga e do lar. Por outro lado, quando nasce uma criança com pênis, ganha roupinhas azuis e a expectativa de todos é que ela seja um garoto destemido, conquistador, garanhão. Quem não se enquadra neste padrão, ou não cumpre o esperado, vivencia o preconceito e a discriminação. Muitos de nós crescemos como problemáticos, desajustados, perturbados, doentes, “anormais”, e depravados, simplesmente porque não atendemos a estas normas sociais, aceitas como “certas e naturais”. Tudo isso acaba por sufocar outras maneiras de viver o desejo e satisfazê-lo sem culpa. Tais regras rígidas estabelecem estereótipos de gênero que aprisionam a todas e todos, pois inibem a espontaneidade de cada um (a).

Por fim, é preciso esclarecer, por mais que seja óbvio, que a escola pública é como o próprio nome diz um espaço público e laico (um país é laico quando tem uma posição neutra no campo religioso. Isso significa que as decisões do governo são tomadas sem a influência da classe religiosa). Um local de aprendizagem e de negociação das diferenças e multiplicidades e que não há pessoas menos ou mais merecedoras de estar ali e nela estudar. Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais merecem estudar e, junto à população negra, são aqueles que mais precisam dos conhecimentos escolares para melhorar de vida. As razões alegadas pelos políticos conservadores e retrógrados e sua “ideologia de gênero” para barrar a inclusão deste tema na grade curricular das escolas brasileiras são apenas a demonstração de preconceitos antigos em relação às sexualidades ditas “desviantes”, que provocam a manutenção de um imaginário social que gera sofrimento no corpo, na pele e na alma de muitos adolescentes, jovens e adultos.


Autor: Paulo Reis - Doutor em Educação, Ativista LGBT e Consultor em Gênero e Direitos Humanos

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