Música: um bom antídoto contra o machismo e o preconceito

Filipe Catto, cantor e compositor

Todos nós, lgbts, nascemos em uma sociedade machista, misógina, preconceituosa e heterossexista. Ouvimos a todo instante que gay não presta, que sapatão não conheceu um homem de verdade, que bissexual vive em cima do muro, que traveco é sem vergonha, e que trans não apanhou o suficiente. Mesmo sendo um amontoado de asneiras, esses discursos provocam um sentimento de inadequação, anormalidade, doença e pecado, obviamente introjetado em nossa mente.

Com relação à orientação sexual, de acordo com a psicóloga clinica, Adriana Nunan em seu livro "Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo" o homossexual ou decide assumir a própria homossexualidade, suportando a possibilidade de rejeição, discriminação e marginalização, ou mantêm segredo sobre a orientação sexual, tendo que defrontar com o isolamento, falta de apoio e a dificuldade de levar uma “vida dupla”. Quando se assume a homossexualidade ela simultaneamente erotiza e viola a masculinidade e a feminilidade, que socialmente são concebidas como padrão. Assumir uma identidade não aprovada socialmente é um árduo processo para o sujeito até ele resolver se revelar para as outras pessoas.

Muito além das dúvidas de - para quem, como e quando contar - não se sabe qual será a reação das outras pessoas e esta atitude coloca em risco a perda de conexões humanas importantes como família e amigos íntimos. E se tivéssemos mais lgbts visíveis no mundo? Certamente haveria muitos modelos positivos para que os jovens pudessem se espelhar. Talvez esteja no embate “visibilidade x invisibilidade” a tensão produtiva para a saída para uma convivência harmoniosa e para a diminuição da estigmatização. Entretanto, todos os remédios contra o preconceito envolvem comunicação e tempo.

A arte é um belo exemplo de comunicação de crenças, formas de linguagem, operações linguísticas, significados, sentidos e de expressão de identidades positivas. Por isso, vamos falar de uma leva de cantores e cantoras lgbts que vem causando um frisson entre a juventude, legitimando novos padrões de comportamento.

Ao assistir ao 26º Prêmio da Música Brasileira, que no ano passado homenageou os 50 anos de carreira de Maria Bethania vi boquiaberto, após Alcione interpretar “Negue” de Adelino Moreira / Enzo de Almeida Passos e Letícia Sabatella declamar “Quando o amor vacila” de Fernando Pessoa, entra no palco um rapaz com os olhos marcados por delineador, uma blusa negra transparente, calças legging preta e um casado imitando penas cantando “Lama” de Dolores Duran. Depois fiquei sabendo que era Johnny Hooker.

Pernambucano, de 28 anos de idade, Hooker é um cantor, compositor, ator, roteirista e diretor, ganhador do Prêmio da Música Brasileira de 2015 como Melhor Cantor na categoria Canção Popular. Ator e canto da música "Volta", trilha do filme Tatuagem, "Amor Marginal" que foi trilha da novela Babilônia e "Alma Sebosa" trilha da novela Geração Brasil, na qual Johnny interpretou o personagem Thales Salgado. Seu primeiro disco solo, o aclamado "Eu Vou Fazer uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!" alcançou primeiro lugar na plataforma de streaming Deezer e foi também número 1 no chart MPB do Itunes Brasil. Em uma entrevista, Johny declarou: “O mundo está mudando e sempre vai ter essa primeira reação de quem quer empurrar a roda da história para trás. Mas a roda vem com tudo e eu venho com ela”.


Conheci Assucena Assucena e Raquel Virginia, ambas com 27 anos de idade em uma matéria da Revista Brasileiros. Elas são vocalistas da banda “As Bahias e a Cozinha Mineira”. São transexuais e cantam para espantar o machismo e a homofobia, como disseram em uma reportagem à Folha de São Paulo. Cantam musicas que falam das pautas feministas em “Mulheres”, “Uma canção pra você” ou “Apologia às Virgens Mães”. Assucena diz que numa festa na USP chegou a ser ameaçada de apanhar. “Um rapaz me disse: se encostar em mim vai receber um murro. Vou quebrar sua cara”. Ela rebate e cita Simone de Beauvoir: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”.


Conheci Liniker através do Youtube. Com apenas 20 anos de idade, natural e Ararquara/SP. ele canta black music e soul e soma mais de 1 milhão de visualizações no clip em que aparece de saia, brincos, batom escuro, colar, turbante e bigode. “Quando me questionam sobre gênero, eu falo que eu não sei quem eu sou e eu acho que é importante viver essa dúvida também. Eu não preciso ter uma certeza de ‘sou homem’ ou ‘sou mulher’, meu corpo é livre, meu corpo é um corpo político, ele merece a liberdade dele e eu preciso caminhar com isso, aceitar que eu sou assim”, disse ao G1.

- “Comecei a escrever e falei ‘vou escrever sobre o que eu sinto, sobre essas relações, sobre como me atravessam, sobre como é sentir isso dentro de mim'", explicou. Sua música está conquistando milhares de internautas que transformaram seu EP “Cru” em um sucesso.
“Já sofri críticas relacionadas a racismo, mas relevei. Foi publicado um vídeo em uma página, havia uns comentários bastante tortos e eu pensei ‘é me empoderando que eu vou conseguir acabar com isso’. Acho importante quando as pessoas se empoderam. Em uma situação como essa, penso ‘você não vai me oprimir mais’”, falou.


A Banda Uó veio da cidade de Goiânia, e é formada pelo trio de amigos Davi Sabbag, Mateus Carrilho e a transexual Mel Gonçalves, a Candy Mel. Tocam tecnobrega e a adaptação da Whip my Hair, de Willow Smith, que na versão do trio virou "Shake de Amor", entrou para a seleção do VMB, na MTV Brasil e ganhou destaque não apenas na internet, mas em diversos programas televisivos no Brasil. A vocalista da Banda Uó, Candy Mel foi convidada para ser a protagonista da campanha #EuUsoAssim da Avon para comemorar o Outubro Rosa de 2015. Enquanto a maioria das campanhas apostaram no padrão heteronormativo vigente, a Avon trouxe uma mulher trans para falar sobre beleza e câncer de mama. No vídeo, Candy fez um tutorial com produtos em tons de rosa e roxo - provando que dá para abusar das tonalidades e montar um make poderoso para qualquer hora do dia. Em nenhum momento é mencionado que ela é uma mulher trans - até porque o fato de ela estar ali já é algo de tamanha importância para a comunidade LGBTT.


Jaloo, nascido em Castanhal, cidade a 80 quilômetros de Belém, no Pará, tem 27 anos. Passou a infância muito ligado em videogames e nada em música. Mas depois que um amigo o apresentou aos discos da cantora islandesa Björk e os de outros experimentalistas da música pop eletrônica, ele virou um obcecado pelos softwares musicais.

— Não conseguia parar, todo dia eu acordava e queria criar algum beat novo. As coisas que eu fazia nem eram tão boas, mas funcionavam como terapia — diz ele, um autodidata em produção (aprendeu tudo em tutoriais do YouTube) e virtuoso no FruityLoops, programa de edição musical que muitos já consideram ultrapassado. — Minha maneira de compor é totalmente visual, por isso continuo até hoje no FruityLoops, fiz todo o disco com ele. Me dê um limão que faço uma limonada.
Ele chamou a atenção dos cenários pop e eletrônico underground quando lançou seu EP de estreia, Insight, em 2014. E agora promove o seu álbum de estreia, #1, e seu novo clipe, Last Dance, que foi dirigido e roteirizado por ele mesmo. E o fato de ter começado bem ao lado da cena tecnobrega de Belém só ajudou Jaloo. Para interpretar as músicas do disco ele tem o acompanhamento de Irina Bertolucci (nos teclados) e Naná Rizinni (na bateria eletrônica).


Já Filipe Catto, 26 anos é cantor, compositor, violonista e pianista brasileiro, nascido em Lajeado (RS), criado em Porto Alegre e radicado em São Paulo. De pele alva, traços finos, cabelos e olhos negros é um daqueles fenômenos da música em que basta uma única audição para causar uma sensação de frescor no ouvinte atento. Emplacou a cancão "Saga" na novela global Cordel Encantado, mas ao ouvir sua voz fina música, imagina-se que é uma mulher. Em entrevista para Eleven Culture, ele diz: As pessoas sempre tentaram me encaixar em um estereótipo, porque era muito difícil pra elas entenderem minha voz. Pra mim, por exemplo, o fato de não me montar era a transgressão maior, porque tudo que se esperava de mim era exatamente que eu correspondesse a uma imagem feminina nas roupas e na maquiagem pra justificar minha voz andrógina, mas sempre achei que no meu caso isso seria redundante, clichê. O mais importante quando falamos de quebrar os paradigmas do gênero é questionar esses padrões pré-concebidos.

Discutir, problematizar e diluir a heteronormatividade é, para Felipe, muito natural. Em entrevista para o site UOL ele fala: - Todas essas questões são muito latentes no presente. Eu vejo muito essa liberdade como os jovens se comportarem de uma forma ‘gender free’. Não é que o mundo esteja mudando, o mundo mudou. O conservadorismo é uma resposta a isso que está se tornando tão natural. Na política, há uma esfera da sociedade que não está conseguindo aceitar que o mundo já mudou, já é diferente, e esse conservadorismo atual quer fazer retroceder. As pessoas estão desesperadas porque elas não vão conseguir barrar essa revolução. Faz cinco anos que o Brasil pegou um celular na mão com internet, então, é muito grande tudo o que está acontecendo. "Tomada" tem essa pegada, a gente estava com medo de andar na rua, naquele momento, a violência e a homofobia estavam muito grandes”.


Para finalizar, pode-se inferir que o indivíduo pode escolher adotar ou não uma identidade gay. Quando decide adotar um “estilo de vida gay”, o sujeito tem que passar pelo rito de se assumir como tal, termo também utilizado como “sair do armário” ou “coming out”, no que consiste em revelar a sua orientação sexual seja para seus familiares, amigos ou colegas, ganhando assim uma visibilidade pública.

Johny Hoocker; Assucena Assucena e Raquel Virginia d’As Bahias e a Cozinha Mineira; Liniker; Davi Sabbag, Mateus Carrilho e Candy Mel da Banda UÓ; Jaloo e Filipe Catto são artistas que embaralham e confundem os gêneros e as identidades de maneira despudorada e positiva, tanto em suas vidas pessoais quanto em suas criações, clipes publicados na internet, em seus discos e shows. E ao fazerem isto nos dizem que devemos nos vestir como quisermos, expressarmo-nos como quisermos e amar quem, quando e onde quisermos. Eles colocam as novas gerações em sintonia com a contemporaneidade e a possibilidade de vivenciar gênero, sexo e identidade de maneira mais libertária que a minha geração.

Ainda bem.

Autor: Paulo Reis - Doutor em Educação, Ativista LGBT e Consultor em Gênero e Direitos Humanos
Contato: re_pare@yahoo.com.br

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