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O ódio cotidiano que nos afeta


O dia dos namorados de 2016 entrou para a história, não por que um dia dedicado às demonstrações de afeto entre casais apaixonados, mas o dia 12 de junho deste ano amanheceu estranho, frio. Logo cedo uma amiga no indagou se não sabíamos o que havia acontecido em Orlando. Não, não sabíamos. Foi assim que mal acordamos e demos de cara com esta dolorosa realidade. Ao ligar a TV, o noticiário nos informou que os Estados Unidos amanheceram de luto depois que 50 pessoas foram mortas em um atentado em uma boate gay na cidade de Orlando (Flórida). No maior tiroteio da história do país 53 pessoas ficaram feridas. O responsável pelos ataques seria Omar Mir Seddique Mateen.

Fiquei pensando em quantos de nós poderíamos ter ido à boate Pulse na noite anterior. Imaginei também que Omar Mateen poderia ter ido à The Week, à Tunel do Tempo, a Blue Space, em São Paulo; na Le Boy no Rio de Janeiro ou na Delux.e Lounge Club ou na Subway Club aqui em Campinas. Eu poderia estar lá, você também, ou o nosso primo, nosso amigo, aquela colega de trabalho que toda segunda-feira não tem nada a contar do final de semana, já que não pode falar sobre a namorada no ambiente de trabalho ou na faculdade... Enfim, poderia ser qualquer pessoa que passou a vida ouvindo que "homofobia não existe!", que o que os gays e lésbicas, querem "é privilégio!"...

Conforme o tempo foi passando, as noticias foram chegando. O pai de Omar disse à rede americana NBC acreditar que ele tenha agido movido pelo ódio que sentia pela comunidade LGBT. Segundo ele, o filho ficou alterado ao ver dois homens se beijando.

Vi pela internet a mãe de um jovem, atordoada, dizendo que o filho estava na boate com o namorado, que ligaram para ele e ele não respondia, e que o namorado do filho havia sido levado para o hospital. Seu sofrimento era pela trágica situação do massacre e não pelo fato do filho ter um namorado!

Enquanto as famílias das vítimas sofriam a perda de seus entes queridos e milhares de pessoas ao redor do mundo se solidarizam, não só com a dimensão do massacre, como também com sua orientação homofóbica, alguns comentários em grandes portais brasileiros evidenciaram porque o ódio contra homossexuais ainda é um sério problema a ser enfrentado.

No G1, por exemplo, um homem comentou: “Morre milhões de pessoas de fome e miséria e não se faz nada…morre uma meia dúzia numa casa de surubas e ficam tudo chorando,…kkkkkkkkkk…” (sic). Outro comentou: “A policia está esperando o sangue secar para entrar na boate e não correr o risco de contrair HIV, Sífilis, Herpes, Gonorreia, HPV”. “Um alivio para os familiares, pois a família deve sofrer muito quando tem um filho gay e quando eles se vão a família fica aliviada”, escreveu mais um, mesmo frente às imagens de diversos pais e familiares desesperados no local do ataque.

Na segunda-feira, meu amigo Caio Varela, que mora na Argentina postou em seu face:

“Desde ontem quando amanheci com a noticia do massacre homofóbico em Orlando, chorei várias vezes. Chorei pelos mortos, pela dor dos que ficaram, pelo ódio e violência. Chorei pela covardia. Chorei pela reação escancarada de pessoas comemorando o acontecido. Chorei em constatar o quando nos falta como sociedade, o quanto a luta LBGT ainda é insipiente. Mesmo sabendo que a luta continua me dei o direito a isso […] Nessa noite gélida e solitária em Buenos Aires, tento dormir com os olhos inchados, com o peito dolorido, mas com a certeza que vou seguir nessa luta até minha ultima gota de energia”.

Aqui no Brasil há grupos organizados de extrema-direita que se incomodam com a expressão de afeto pública entre pessoas do mesmo sexo. Muitas pessoas não querem ver seus filhos expostos a cenas de beijo gay e é justamente essa rejeição ao afeto homossexual que alimentou a atitude de Omar Mateen, somada ao fato da facilidade de se adquirir uma arma nos EEUU. A boate gay não foi escolhida como alvo por acaso e é esse ódio que leva pessoas em diferentes lugares do mundo, inclusive pessoas comuns que nunca suspeitaríamos que fossem capazes de fazer isso, a exercer as formas mais cruéis e desumanas de violência contra as pessoas LGBT.

Delírios homofóbicos reproduzidos por políticos e líderes religiosos, como Jair Bolsonaro (há vários vídeos dele no youtube para quem quiser ver), quando diz: “o filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele”. Esse discurso alimenta a rejeição por comportamentos fora do padrão heteronormativo e naturaliza toda forma de violência, justificada como possibilidade de fazer com que a pessoa volte para a “normalidade”.

Com o passar da semana noticias chegavam e a grande imprensa procurou associar a atitude Omar a uma auto-rejeição já que ele supostamente era gay, ou associação com grupos extremistas islâmicos, minimizando o fato dele odiar lgbts e procurar nos eliminar. Disseram que ele frequentava a boate Pulse e utilizava aplicativos de busca por parceiros, no entanto, estas atitudes fizeram parte de sua estratégia de procurar vitimas e locais para possíveis ataques. Um acontecimento desses deve ser premeditado, planejado cuidadosamente com muita antecedência, obviamente ele iria conhecer suas vitimas, os locais onde frequentavam e qual o esquema de segurança do local. Afinal, ninguém deixa as pessoas entrarem em baladas com uma arma.

Segundo o banco de dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), atualizados diariamente no site QUEM A HOMOTRANSFOBIA MATOU HOJE, 318 LGBT foram assassinados no Brasil em 2015: um crime de ódio a cada 27 horas: 52% gays, 37% travestis, 16% lésbicas, 10% bissexuais. A homofobia mata inclusive pessoas não LGBT: 7% de heterossexuais confundidos com gays e 1% de amantes de travestis.

Proporcionalmente, as travestis e transexuais são as mais vitimizadas: o risco de uma “trans” ser assassinada é 14 vezes maior que um gay, e se compararmos com os Estados Unidos, as 119 travestis brasileiras assassinadas em 2015 em comparação com as 21 trans americanas, têm 9 vezes mais chance de morte violenta do que as trans norte-americanas. Segundo agências internacionais, mais da metade dos homicídios contra transexuais do mundo, ocorrem no Brasil.

Crimes contra minorias sexuais geralmente são cometidos de noite ou madrugada, em lugares ermos ou dentro de casa, dificultando a identificação dos autores. Quando há testemunhas, muitas vezes estas se recusam a depor, devido ao preconceito anti-lgbt. Sem contar que policiais manifestam sua homo-transfobia ignorando tais crimes, negando sem justificativa sua conotação homofóbica. Somente em 1/4 desses homicídios o criminoso foi identificado (94 de 318), e menos de 10% das ocorrências redundou em abertura de processo e punição dos assassinos. A impunidade estimula novos ataques.

O atual governo brasileiro, formado por um grupo de ministros brancos, heterossexuais, velhos e conservadores, soltou uma nota através do Ministério das Relações Exteriores:

"O governo brasileiro recebeu com profunda consternação e indignação a notícia do ataque a casa noturna em Orlando, Flórida, que provocou a morte de mais de 50 pessoas, e deixou dezenas de feridos.

O Consulado-Geral do Brasil em Miami está em estreito contato com as autoridades locais e com a comunidade brasileira em Orlando. Até o momento, não há notícia de brasileiros entre as pessoas vitimadas pelo ataque."

Ao transmitir sua solidariedade às famílias das vítimas, ao povo e ao governo norte-americanos, o governo brasileiro reafirma seu mais firme repúdio a todo e qualquer ato de terrorismo. Nenhuma motivação, nenhum argumento justifica o recurso a semelhante barbárie assassina. (vejam a nota aqui). Notem que não se fala em homofobia, gay, boate gay, nem o termo genérico “diversidade sexual” e se aliam ao discurso de um ataque terrorista e não homofóbico.

Hoje, quando sentei para escrever esse artigo me deparei com a noticia de que neste mesmo final de semana, no sertão da Bahia, em Santaluz (cerca de 260 km de Salvador) Edivaldo Silva de Oliveira e Jeovan Bandeira deixaram a escola estadual em que trabalhavam, por volta das 22h da última sexta-feira (10). Menos de uma hora depois, dois corpos foram localizados no porta-malas no carro de Edivaldo, às margens da rodovia BA-120. O veículo e os corpos estavam carbonizados. Edivaldo, que era conhecido como Nino, foi identificado pela arcada dentária. Sob chuva, o corpo do professor foi enterrado nesta terça-feira (14), após um cortejo de duas horas que reuniu centenas de moradores. O outro corpo ainda passará por exames de DNA para identificação, mas familiares acreditam ser de Jeovan, já que ele está desaparecido desde sexta.

Essas tristes noticias evidencia o fato de que o preconceito tem criado uma situação que encoraja e legitima a violência à LGBTs e que lésbicas, gays, travestis e transexuais colorem as ruas nas Paradas do Orgulho LGBT, e no entanto esse mesmo Brasil é tingido diariamente com o vermelho do sangue das vitimas do preconceito, do ódio e do machismo.

Se cuide!

Autor: Paulo Reis - Doutor em Educação, Ativista LGBT e Consultor em Gênero e Direitos Humanos
Contato: re_pare@yahoo.com.br


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